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Versos meus

Por : Eduardo Heldt Urban
Jusepe de Ribera The Poet (Etching, 1620-21) Metropolitan Museum of Art

Ó, meu cético Deus
Por que o poeta sofre tanto?
Nesse mundo dos teus
Que a poesia não é mais um encanto.

O que antes era canto
Deixou de ser dando adeus
Hoje foi tomado por pranto
e amores somente meus

Canto a Virgílio

Por : Eduardo Heldt Urban
Arte de Gustave Doré

Minha terra não tem nada
E tão menos girassóis
Minha terra é vermelha
Donde melam caracóis

Nosso céu não têm estrelas
Apenas fogo-causa-dores
Aqui não temos mais vida
Muito menos mais amores

Em cismar junto c’a noite
O sofrimento encontro a cá
Uns já sem cabeça ao lado
Com as tripas acolá

Minha terra tem horrores
Vocês nem podem imaginar
Em cismar junto c’a noite
Mais cabeças vão rolar
Minha terra tem caveira
Dos que tiveram vida má

O diabo quer que eu corra
Para não voltar pra lá
Para ver alguns horrores
Os que têm mais para cá
Sem qu’inda aviste tudo
Daqueles que morreram já

Fraqueza

Por : Eduardo Heldt Urban

A terra? Base, o chão
O ar? Necessidade
Fogo? É a paixão
E a água, felicidade.

Felicidade não água mais é
O fogo deixou a paixão em borralho
Isso tira o ar em um só pontapé
E ir abaixo da terra se torna um atalho.

A paixão incendeia a alma
A felicidade se afoga de tristeza
A terra, sem nada, bate palma

E a corda lhe tira o ar, que fraqueza.

Sonhos Lúcidos

Por : Eduardo Heldt Urban
O Pesadelo – Henry Füssli

Têm dias que acordo de um sono profundo, mas passo o resto do dia sonhando. Desperto de um sonho, mas não estou realmente acordado, fico submerso a pensamentos enquanto faço coisas do cotidiano. É triste de viver, pois somente acordo de verdade quando deito e volto a sonhar.

Ápice

Por : Eduardo Heldt Urban
Estátua de Dante Alighieri em Florença, na Itália.

O poeta almejou o topo da colina
Ao chegar lá, bradaria bem alto o fim da rotina
Ensejou ao corpo a dor do fracasso
E foi correndo, a grande passo
Pro alto que tanto sonhou

Até que enfim chegou!
Mas contemplou-se sozinho
O monte já não parecia o caminho
Ele desceu de lá, com o passo fininho
E vislumbrou duas sombras no chão:

A do poeta e da solidão.

Romance Moderno

Por : Eduardo Heldt Urban
Ilustração por NetRaptor (http://netraptor.deviantart.com/art/Dark-romance-value-sketch-196971562)


Amor, dos pés a cabeça
Um horror, por mais que eu mereça
No peito uma dor, não faz diferença
É difícil de expor, pois há desavença
Nos ramos de flor, tento fazer a nascença
Desse pudor, dessa paixão-doença

As costas do passado doem

Por : Eduardo Heldt Urban
Ilustração de Silent Haze: http://silent--haze.deviantart.com/

Passado era o mais velho de três irmãos, sendo que Presente era o irmão do meio e Futuro a caçula. Um dia eles se sentaram sobre uma fogueira e decidiram se encarregar de suas eternas funções com a humanidade.
- Serei encarregado pelo agora de cada um. – afirmou o Presente.
- Eu serei o que irá acontecer com eles, quase um sinônimo de destino. – disse o Futuro.
O passado sorriu e afirmou orgulhoso:

- E eu carregarei comigo as suas vergonhas.

Rotina

Por : Eduardo Heldt Urban
Imagem de domínio público

Era uma vez um palhaço em meio a uma grande plateia. A plateia precisava somente dele e ele precisava somente dela. Como um bom colecionador de sorrisos os aplausos supriam o seu vício, mas tão logo um silencio o ensurdeceu e uma música circense respondeu:

 “Feliz na tristeza, triste na alegria; essa é a vida da nossa maioria. Por baixo dos panos, de dentro dos trajes; com rios de suor, é um grande ultraje. Buscando a alegria que tanto teima em fugir; a felicidade alheia insiste tanto em punir.”

O palhaço acordou assustado. Maquiou o rosto, botou o batom na boca, vestiu o seu traje largo e colorido, as grandes luvas sobre as mãos, calçou os enormes sapatos, colocou o sorriso no rosto e, por fim, a bolinha vermelha sobre o nariz... Sem conhecer a maldição que o faria infeliz.

Em seu rosto havia o riso que disfarçava a lágrima e com ele, saiu de casa.

Chegou à rua olhando diretamente para as sinaleiras, os seus aplausos logo se tornariam buzinas grosseiras.


"Eles riram de mim"

Por : Eduardo Heldt Urban

Eduardo, com cinco anos de idade, cursava a 1ª série do Ensino Fundamental em uma escola católica. Como de praxe trimestral, ele e seus coleguinhas foram convidados para subirem as escadas para irem à sala onde se encontrava a estatua da Santa Ave Maria, para rezarem e, na prece, pedir aquilo que eles queriam para as suas vidas.
Os colegas de Eduardo pediam quase sempre as mesmas coisas:
“- Quero passar de ano...”- diziam uns.
“- Quero o bem da minha família...” – diziam outros.
Até chegar a vez de Eduardo (qual quebrou esse tabu de mesmices) fazer o seu pedido e, como uma boa e inocente criança sonhadora, ajoelhou-se sobre a estátua e rezou pedindo:
- Quero ser uma Tartaruga Ninja de faixa roxa...
No momento em que Eduardo terminou sua prece um tumulto formou-se pela sala debochando dele, logo começou a chorar vendo que seu sonho não passava de uma piada.
“- Que idiota!” – caçoavam uns.
“- Bebezinho chorão!” – caçoavam outros.
A raiva subiu-lhe a cabeça, mas tudo o que ele conseguia fazer era chorar e pensar sobre os prantos:
- “Um dia ainda realizarei o meu sonho...”
E esse dia chegou, Eduardo mais do que nunca honrou a criança que há dentro dele e virou, de uma vez por todas, uma Tartaruga Ninja de faixa roxa.



Fotos por Alessandra Luz: https://www.facebook.com/alessandraluzfotos?fref=ts

a OUTRA volta do parafuso

Por : Eduardo Heldt Urban
Imagem de domínio público

Pássaros-pracinha sem aviões com turbo dimensões
Derivados do leite que nem todo mundo hoje toma[...]
As coisas mudam (?) sem simetria em um mundo de cordão
Os buracos de minhoca sugam e nos regridem sem motivo
Um para-choque de motoca me impede de beber água do rio
"isso vai mudar" eles me disseram
[...]mentira

Se é só pra "mim" entender que o índio quebre a perna
No dia de hoje eu lhes ensinei a fazer arte moderna


Discussão

Por : Eduardo Heldt Urban
Ilustração de Loui Jover: http://www.saatchiart.com/louijover

Saiu da sua boca em um tom patético
Duas palavras que ele leu na página
Em sua voz entonando a própria dúvida
E a tremular o som que saía como êxodo
Seria engraçado se não fosse trágico
Não entendo o que diz pela sua fonética
Quando questionado já responde rápido
E tenta se afogar em um suspiro último

Quando discurso em um tom amável
Vem se metendo como se fosse o júri
E aponta sua palavra igual a um lápis
Com respostas divulgadas de um jeito ímpar
A fera precisa ser acalmada para ficar dócil
Quando fecha a boca é similar à bênção
Mas retoma a divagar de forma lamentável
Novamente da sua boca se espalha o vírus

Vou eu de novo retrucar de forma cortês
Mas logo sou pego e caio no efeito dominó
De alguém que mal sabe falar o português
Que nunca fez alguém tirar o chapéu
E não para em momento algum de citar seu herói
De suas palavras ele mesmo se torna refém
Então paro e digo: “é assim que se constrói”
Ele se cala como um rato quando o queijo rói

Com a sua lágrima tudo acabou de jeito mágico
Minhas palavras lhe deixaram estéril de maneira fácil
Agora sentemos, vamos tomar um café, eu pago para você.

Generosidade

Por : Eduardo Heldt Urban
Foto por carol beckwith and angela fisher: http://carolbeckwith-angelafisher.com/

“Não persista no mesmo erro
Não mantenha a mesma estratégia
Crie soluções e faça ao erro um enterro

Faça da perseverança tua régia
Crie outras soluções para um só problema
Faça de diferentes opções um só sistema


Aprenda com os erros e alcance a excelência”

Inescrito

Por : Eduardo Heldt Urban
Arte de Jackson Pollock

É muito difícil descrever o que sinto
O que senti no passado ou neste momento
É inexpressivo em palavras, não minto
Não expresso na fala ou no pensamento
O sentido é vago, nada, nem vezes, sucinto

Por fim, o que posso falar é: o sentimento
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Recado à Rá

Por : Eduardo Heldt Urban
Autor da arte desconhecido 

Provou ser digno de mim o respeito
Deixo a ti esse novo Sistema perfeito
Lidere com sabedoria, faça bom proveito
Só não esqueça de mim e de seu novo feito

A ti deixo instaurada a minha vontade
Estampe em tua face somente a bondade
Não deixe as trevas consumirem-te com deslealdade

Pois é deles, dos maus, que devemos ter pura piedade.
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Dia de Formatura

Por : Eduardo Heldt Urban
arte por Christine YK Chong 

Gire mundo, gire!
Comparem-me a pessoas vazias
Coloquem-se em meu lugar
Calar-vos-ia minha mão
A um momento como esse, melhor não

Celebrações vão ocorrendo

Perto do lugar donde venho estar
Gloriosa homenagem que prestei aparecendo
E a falta de ética faz-me parar

Junto as lágrimas caídas sem mais tempo
Era esse o meu dia, terminou-se me deixando
Junto as lagrimas caídas, nem eu sei se mais agüento
Palavra por palavra, odiei ser um formando

E eu achando que o mundo era pequeno
Vejo como é grande por dentro
Agora sinto como nunca senti
O peso do meu corpo sobre mim

Sozinho aqui não me sinto mais só
Mas como hoje não sentiram dó?
Do pobre choro calado na voz
Sem falar nada preso a um nó

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