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Eve Zel - Analectos I

Por : Eduardo Heldt Urban
Foto por Alessandra Luz


A maior satisfação de ser um artista é de poder reviver suas vidas passadas.


O ignorante fala, o inteligente fala e faz enquanto o sábio já o fez em silêncio.


Hoje homens não mais cometem atos virtuosos, pois estão ocupados demais discutindo a virtude.


A bondade é una, a maldade plural.


O meio mais nobre dos perigos é a batalha.


A paciência, além de virtude, também é providência.


A arte, quando bem apreciada, apetece a alma.


A generosidade nos dá forças, o egoísmo apatia.

13:30

Por : Eduardo Heldt Urban
imagem de bernardosilveira

Triste realidade esta de agora, 
sinto a mente cheia
E só ontem me dei conta disto, 
era quase uma e meia:

"O mesmo horário que saio 
para trabalhar todo o dia
era o mesmo horário em que
brincava eu com alegria."


Divindade Sombria

Por : Eduardo Heldt Urban


Fui-me atrás de um sonho
A ti voltares e voltares
Se a ti trazeres a paixão
Tu, de fato me deixas a solidão
Como a formosa claridade do dia
Devasta-se, tempestuosa, como a divindade sombria
Ao calor dos teus braços, vejo-me diante de ti
Ao frio e nefasto só, vejo-me sem você aqui
Diga-me pelos céus, tamanha loucura de amar-te
Quanto a indesejada amargura de perder-te
Vagando sem rumo diante da arrogância
É nesse dia que aturo o amargo gosto da distância.

Seio teu

Por : Eduardo Heldt Urban
Foto por Alessandra Luz

Dos teus seios que eu amo
Que me virou já talismã
Tu deitada sobre o ramo;
Um cheiro doce de hortelã
Não faz isso que me gamo
Endoidecendo a mente sã

Eu te beijo, tu me beijas
Já pego no seio teu
O calor que tu me deixas
Tão assim no lábio meu
Arrancando tuas madeixas
No prazer do apogeu

Tua divina formosura,
Tua pele tão cheirosa
Desta angélica aventura,
Desta paixão polvorosa
O meu corpo se mistura
Com tua alma graciosa

Já deitada no meu braço
Sinto a tua pulsação
Com o meu dedo traço
Minha linda maldição
Dorme o seio que deu laço
No meu forte coração

Réquiem

Por : Eduardo Heldt Urban
arte por Xetobyte

Anuncio a todos: amanhã morrerei!
Minha tripa será dos colegas de profissão
Farão dela uma corda, onde o som for eu irei
Toquem com vontade, deem a mim expressão

Cantem os meus sonhos que castigavam
Ou quando voavam errantes por todo o céu
Estes mesmos ao meu peito incendiavam
Suspirando no alaúde, as notas do menestrel

Sobre o meu sangue e os meus restos
Escreveu na melodia de um guri
Tocando as cordas donde eu me manifesto
A canção mais linda que já ouvi

Meu Alaúde

Por : Eduardo Heldt Urban
Foto por Alessandra Luz


Tocando na madeira desse objeto obsoleto
A minha alma, tão antiga, pôde viver outra vez
De seus detalhes, da madre pérola ao abeto,
Das tiras de mogno que o dá tanta rigidez

Ao artista egípcio eu apenas agradeço
Construiu-o pra mim de seu sofrimento, talvez?
Creio que o fez com tanto amor e apreço
Pois o seu som reverbera a mais pura placidez,

Mas a criatura se voltou contra o criador
Na desventura de criar um instrumento com grude
As mãos do artesão devem ter sugado toda a dor

Daquela arte de tocar algo por virtude
Ele sabe que a obra será usada com amor,
Pois não é de hoje que quero um alaúde.

Versos meus

Por : Eduardo Heldt Urban
Jusepe de Ribera The Poet (Etching, 1620-21) Metropolitan Museum of Art

Ó, meu cético Deus
Por que o poeta sofre tanto?
Nesse mundo dos teus
Que a poesia não é mais um encanto.

O que antes era canto
Deixou de ser dando adeus
Hoje foi tomado por pranto
e amores somente meus

Canto a Virgílio

Por : Eduardo Heldt Urban
Arte de Gustave Doré

Minha terra não tem nada
E tão menos girassóis
Minha terra é vermelha
Donde melam caracóis

Nosso céu não têm estrelas
Apenas fogo-causa-dores
Aqui não temos mais vida
Muito menos mais amores

Em cismar junto c’a noite
O sofrimento encontro a cá
Uns já sem cabeça ao lado
Com as tripas acolá

Minha terra tem horrores
Vocês nem podem imaginar
Em cismar junto c’a noite
Mais cabeças vão rolar
Minha terra tem caveira
Dos que tiveram vida má

O diabo quer que eu corra
Para não voltar pra lá
Para ver alguns horrores
Os que têm mais para cá
Sem qu’inda aviste tudo
Daqueles que morreram já

Fraqueza

Por : Eduardo Heldt Urban

A terra? Base, o chão
O ar? Necessidade
Fogo? É a paixão
E a água, felicidade.

Felicidade não água mais é
O fogo deixou a paixão em borralho
Isso tira o ar em um só pontapé
E ir abaixo da terra se torna um atalho.

A paixão incendeia a alma
A felicidade se afoga de tristeza
A terra, sem nada, bate palma

E a corda lhe tira o ar, que fraqueza.

Sonhos Lúcidos

Por : Eduardo Heldt Urban
O Pesadelo – Henry Füssli

Têm dias que acordo de um sono profundo, mas passo o resto do dia sonhando. Desperto de um sonho, mas não estou realmente acordado, fico submerso a pensamentos enquanto faço coisas do cotidiano. É triste de viver, pois somente acordo de verdade quando deito e volto a sonhar.

Ápice

Por : Eduardo Heldt Urban
Estátua de Dante Alighieri em Florença, na Itália.

O poeta almejou o topo da colina
Ao chegar lá, bradaria bem alto o fim da rotina
Ensejou ao corpo a dor do fracasso
E foi correndo, a grande passo
Pro alto que tanto sonhou

Até que enfim chegou!
Mas contemplou-se sozinho
O monte já não parecia o caminho
Ele desceu de lá, com o passo fininho
E vislumbrou duas sombras no chão:

A do poeta e da solidão.

Romance Moderno

Por : Eduardo Heldt Urban
Ilustração por NetRaptor (http://netraptor.deviantart.com/art/Dark-romance-value-sketch-196971562)


Amor, dos pés a cabeça
Um horror, por mais que eu mereça
No peito uma dor, não faz diferença
É difícil de expor, pois há desavença
Nos ramos de flor, tento fazer a nascença
Desse pudor, dessa paixão-doença

As costas do passado doem

Por : Eduardo Heldt Urban
Ilustração de Silent Haze: http://silent--haze.deviantart.com/

Passado era o mais velho de três irmãos, sendo que Presente era o irmão do meio e Futuro a caçula. Um dia eles se sentaram sobre uma fogueira e decidiram se encarregar de suas eternas funções com a humanidade.
- Serei encarregado pelo agora de cada um. – afirmou o Presente.
- Eu serei o que irá acontecer com eles, quase um sinônimo de destino. – disse o Futuro.
O passado sorriu e afirmou orgulhoso:

- E eu carregarei comigo as suas vergonhas.

Rotina

Por : Eduardo Heldt Urban
Imagem de domínio público

Era uma vez um palhaço em meio a uma grande plateia. A plateia precisava somente dele e ele precisava somente dela. Como um bom colecionador de sorrisos os aplausos supriam o seu vício, mas tão logo um silencio o ensurdeceu e uma música circense respondeu:

 “Feliz na tristeza, triste na alegria; essa é a vida da nossa maioria. Por baixo dos panos, de dentro dos trajes; com rios de suor, é um grande ultraje. Buscando a alegria que tanto teima em fugir; a felicidade alheia insiste tanto em punir.”

O palhaço acordou assustado. Maquiou o rosto, botou o batom na boca, vestiu o seu traje largo e colorido, as grandes luvas sobre as mãos, calçou os enormes sapatos, colocou o sorriso no rosto e, por fim, a bolinha vermelha sobre o nariz... Sem conhecer a maldição que o faria infeliz.

Em seu rosto havia o riso que disfarçava a lágrima e com ele, saiu de casa.

Chegou à rua olhando diretamente para as sinaleiras, os seus aplausos logo se tornariam buzinas grosseiras.


"Eles riram de mim"

Por : Eduardo Heldt Urban

Eduardo, com cinco anos de idade, cursava a 1ª série do Ensino Fundamental em uma escola católica. Como de praxe trimestral, ele e seus coleguinhas foram convidados para subirem as escadas para irem à sala onde se encontrava a estatua da Santa Ave Maria, para rezarem e, na prece, pedir aquilo que eles queriam para as suas vidas.
Os colegas de Eduardo pediam quase sempre as mesmas coisas:
“- Quero passar de ano...”- diziam uns.
“- Quero o bem da minha família...” – diziam outros.
Até chegar a vez de Eduardo (qual quebrou esse tabu de mesmices) fazer o seu pedido e, como uma boa e inocente criança sonhadora, ajoelhou-se sobre a estátua e rezou pedindo:
- Quero ser uma Tartaruga Ninja de faixa roxa...
No momento em que Eduardo terminou sua prece um tumulto formou-se pela sala debochando dele, logo começou a chorar vendo que seu sonho não passava de uma piada.
“- Que idiota!” – caçoavam uns.
“- Bebezinho chorão!” – caçoavam outros.
A raiva subiu-lhe a cabeça, mas tudo o que ele conseguia fazer era chorar e pensar sobre os prantos:
- “Um dia ainda realizarei o meu sonho...”
E esse dia chegou, Eduardo mais do que nunca honrou a criança que há dentro dele e virou, de uma vez por todas, uma Tartaruga Ninja de faixa roxa.



Fotos por Alessandra Luz: https://www.facebook.com/alessandraluzfotos?fref=ts

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