Mulheres, sejam as heroínas que precisamos.

Foto de campanha contra violência doméstica


Bom, hoje era para ter sido um dia normal. Fui para o centro, junto de meu irmão (que já mora lá) para dar uma olhada nos livros em livrarias da cidade, mas quando nos despedimos e peguei o caminho (a pé) para minha casa percebi algo um tanto quanto peculiar...
Uma mulher e um homem estavam, um pouco a minha frente, cheios de malas e discutindo. Aquilo chamou minha atenção e, como explicar, vocês já viram Sherlock? Quando ele começa a analisar a situação e deduz, de forma lógica, todas as características da pessoa que ele olha e acerta em cheio tudo aquilo que ele acha que essa pessoa é/faz. Esse fui eu observando aquele homem e, como havia falado para meu irmão mais cedo a respeito do jogo detetive, ninguém que eu conheça é melhor no poder da dedução e no raciocínio lógico do que eu.
Então eu reduzi o passo e fiquei logo atrás do casal, fingindo estar mexendo no celular. Minha primeira impressão não me enganou. Olhos vermelhos, tremeliques nas mãos, explosão ao falar e a mão levantada já para largar um sopapo no rosto da mulher. Aquele homem usara crack e agredia a sua esposa constantemente. Mas ele ainda não havia agredido ela, não naquele momento, o que não me deixava fazer nada contra ele. Então, numa região não tão íngreme da calçada, eles fizeram que iam atravessar a rua. Eu atravessei, mas eles não (os meus olhos ainda estavam grudados nos dois). Foi quando aconteceu, o homem (segurando uma caixa de papelão) agrediu duas vezes seguidas o braço de sua mulher. Eu saí correndo em direção a eles no mesmo instante.
Antes de eu chegar até eles, um grupo de três esqueitistas já haviam abordado o homem, falando coisas do tipo: "tu não pode fazer isso", "isso é errado", "pare de bater nela", etc. Eu cheguei até eles e assumi o controle da situação, com os braços para trás e apertando os olhos em uma expressão intimidadora eu fiquei cara-a-cara contra o carrasco, dizendo o seguinte: "Senhor, por que agrediste ela? Chamarei a polícia e o senhor será acusado por Maria da Penha. Temos diversas testemunhas oculares por aqui."
Como eu estava falando em um jeito meio mesquinho e "like a boss" com ele, é óbvio que o carrasco emputeceu: "Não te mete em briga dos outros, guri! Não sabe de nada da vida! Eu tenho o dobro da tua idade!"
Quase na hora eu já respondi que ele tinha o dobro da minha idade, mas nem a metade de minha inteligência. Ele foi pegar a mulher pelo braço, mas eu me pus a frente da oprimida, de braços abertos e não o deixando encostar um dedo se quer nela. Ele ficou ainda mais bravo.
Pedi para os esqueitistas cuidarem dele e eu liguei para a polícia. Disquei 190 e falei com o policial, mas no meio da ligação, distraído e virado de costas para a situação, dei a brecha para o carrasco me apunhalar pelas costas! Os esqueitistas, de certo, não esperavam por aquilo. O homem me agrediu! Pegou pelo meu pescoço e eu, desequilibrado, caí no chão. Mas o braço dele estava ainda sobre o meu pescoço e eu, sem pensar, imobilizei e deixei aquele cotovelo a mostra para um empurrão, que causaria uma linda fratura exposta, mas eu pensei melhor (ainda estava ao telefone) e passei o braço imobilizado para um dos esqueitistas (ele parecia lutar jiu-jitsu pelo estado de sua orelha) e, com isso, ele imobilizou o carrasco no chão (fazendo a cabeça do mesmo sangrar em uma leva concussão, foi lindo de ver) e eu falei para o policial que o homem acabara de me agredir também.
Eu finalizei a ligação com a policia pedindo a viatura rapidamente (coincidentemente estávamos relativamente perto da Brigada Militar da cidade), mas a polícia tardou (até demais) para aparecer.
Enquanto esperávamos a policia, com o homem descontrolado no chão, eu me abaixei (a sua frente) e falei coisas como "Agora que o senhor me agrediu eu também tenho o direito de te denunciar por agressão" e coisas do tipo, mas só para deixá-lo com ainda mais raiva. As pessoas na volta começaram a me chamar, perguntando se estava tudo bem e etc, algumas (surpreendentemente) até sabiam o meu nome, mas eu não sabia o delas. Um cara, dono de uma loja ali perto, queria que os dois esqueitistas que estavam imobilizando ele o soltassem, pois ele sabia que eu lutava TaeKwonDo e queria me ver dar uma surra no covarde. Mas eu expliquei pra esse homem que, além de não ser coisa de se fazer, ainda, se eu fizesse isso, iria sobrar pra mim. Ele assentiu em concórdia.
Aí chegou o momento de eu conversar com a mulher agredida. Pela minha rápida observação eu já supus tudo: ela o temia (muito!) e era muito oprimida. Eu juro para todos e todas vocês que estão lendo: eu tentei, e como tentei! Convencê-la que ela precisava fazer a ocorrência contra aquele canalha. Ela não quis.
Mas a polícia ainda não tinha chegado ao local!
Os esqueitistas soltaram o maluco e ele, na mesma hora, me entorpecendo de ameaças pegou suas malas e foi indo em direção da rodoviária. A oprimida foi atrás e eu tomei rumo, sozinho, junto a eles. Resolvi ligar para o meu pai, a policia não tinha vindo até então e meu pai (policial aposentado) teria de levá-lo até a delegacia. Por bem ou por mal.
Eu liguei para o meu pai, do lado do casal, e pedi rapidez para ele. Pois eles já estavam chegando na rodoviária e aquele homem precisava ser detido!
Quando, depois de dois minutos (no máximo) de caminhada, chegamos a esquina da rodoviária duas motos da polícia se apresentavam e, felizmente, um dos policiais era um velho amigo meu.
Expliquei meio por cima para eles e pedi para que impedissem o homem de alcançar a rodoviária, os policiais assim fizeram. Nisso o meu pai chegou (depois da policia para a alegria do pessoal dos direitos humanos), desceu do carro junto do meu irmão e já foi encher o carrasco de ameaças. Eu estava muito tranquilo, meu pai não.
Bom, durante o interrogatório da policia eles descobriram aquilo tudo que eu tinha deduzido com um olhar. O homem era usuário de crack. Mas a denúncia era por Maria da Penha e, infelizmente, cabia a sua mulher decidir incriminá-lo.
Pela ficha policial do carrasco, ele já havia sido preso e solto (no mesmo dia) por agressão doméstica.
A sua mulher me pedia perdão por ele (um absurdo!) e me explicava a história do porque ele fazia isso (alegava que ele tinha depressão e que eles vieram aqui para a cidade tentar a vida novamente, mas não deu certo) e eu desmereci essa história, pois nada justifica isso. Nem uma guampa na cabeça. NADA! E eu tentei, novamente, juro para todas vocês, mulheres, eu fiz o meu melhor para convencê-la para incriminá-lo, mas a oprimida, de forma veemente, não quis.
Ela apenas acenava negativamente a sua frágil cabeça e, com uma expressão de medo, me pedia perdão pelo seu homem. Eu fiquei enauseado e a encarei por alguns minutos, enquanto ela insistia pelo meu perdão (de um jeito que eu parecia ser o seu Messias, muito assustador, por sinal) e eu não perdoei o homem. A polícia perguntou para a mulher (uma última vez) se ela queria registrar a Maria da Penha e a oprimida, abruptamente, disse que não. As motos da polícia foram saindo com seus policiais montados, de forma imponente, sobre elas e eu, numa última encarada, disse para a mulher: "Boa sorte!" Virando minhas costas e abrindo a porta do carro de meu pai, mas antes de entrar no carro veio um casal que presenciou tudo aquilo (por coincidência eram vizinhos desse casal conturbado) e eles me deram os parabéns. Eu agradeci e disse que apenas fiz meu papel como cidadão de bem.
Meu pai, orgulhoso, já falou para eles que eu era formado em Música, mas que seguia carreira de escritor, que faria um lançamento na casa de cultura da cidade dia 18 de junho. Foi bonitinho.
Eu ainda cuidava o casal na rodoviária, parecia que ela estava protegida. Por enquanto.
Nos despedimos, a mulher, de forma acolhedora, disse que foi uma honra me conhecer. Entramos no carro e cá estou. Mas o que essa história deixa?
Nós sabemos que ela apanhará quando chegar em casa. Nós sabemos que isso não acabara nunca.
Mulheres, eu peço para que não se acovardem! Vocês são mais fortes do que nós! Vocês têm mais poder! A sociedade é machista por causa de mulheres como a oprimida dessa verdadeira história. No momento que não existirem mais mulheres que acreditam que seus homens agressores nunca mais irão lhes agredir, não existirá mais sociedade machista. Está na mão de vocês. Peço também que não sejam como a mulher desse relato e peço, de forma encarecida, para os homens não serem como o carrasco.