Meu Alaúde

Foto por Alessandra Luz


Tocando na madeira desse objeto obsoleto
A minha alma, tão antiga, pôde viver outra vez
De seus detalhes, da madre pérola ao abeto,
Das tiras de mogno que o dá tanta rigidez

Ao artista egípcio eu apenas agradeço
Construiu-o pra mim de seu sofrimento, talvez?
Creio que o fez com tanto amor e apreço
Pois o seu som reverbera a mais pura placidez,

Mas a criatura se voltou contra o criador
Na desventura de criar um instrumento com grude
As mãos do artesão devem ter sugado toda a dor

Daquela arte de tocar algo por virtude
Ele sabe que a obra será usada com amor,
Pois não é de hoje que quero um alaúde.