O caso Dedé



Diário do caso Dedé

"24 de agosto de 2015

A coisa mais misteriosa do mundo, eu acho, é a mente humana e a sua capacidade de correlacionar todos os conteúdos criados, imaginados e já sabidos em uma única pensada. Acho engraçado o quão longe chegamos com uma história dessas criadas por um e espalhada por outros, começamos em meio a uma grande nuvem densa de branquidão. Aos poucos a nuvem vai escurecendo, os raios reverberando, nos deixando confusos, logo ricocheteando uns nos outros, nossa nuvem já não pode ser mais vista, pois já estamos em meio à tempestade. É assim que está essa situação.
Meu nome é Baltazar Goes e sou um detetive particular, fui contratado por uma mulher chamada Sônia que perdeu o filho em uma floresta, perto do lugar onde vive. Ela me disse que a polícia tentou achar o menino, mas que eles ainda não voltaram da floresta também, já fazem dois dias que os policiais partiram em busca do menino. Falando nisso, o filho de Sônia não foi o primeiro a desaparecer, segundo ela, outras duas crianças desapareceram antes na região florestal o qual seu filho também segue perdido.

25 de agosto de 2015

Bem, acabei de embarcar no avião daqui da capital até o interior para achar o menino Benjamin, filho de Sônia.
Ao chegar no interior já faço reserva em um hotel caindo as pedaços que fica próximo da casa de minha nova cliente. Depois de fazer o check-in, vou até a casa dela.
Cheguei até a casa de Sônia. Conversamos. Algo parece estar errado com essa mulher. Ela treme ao falar do “monstro” que levou seu menino para longe, mas que ainda tem esperança de acha-lo, por isso me contratou. Eu não posso fazer nada para ela a não ser falar que vai ficar tudo bem.
Peço o endereço das outras famílias que também perderam seus meninos, felizmente as duas casas são vizinhas e não demoro muito até achar uma das famílias.

O menino Francisco

Essa é a casa da família Lacerda, o qual perdeu o seu filho Francisco, há aproximadamente seis dias (com base no que Sônia me informou). Chego até a porta e toco a campainha. Quem abre a porta é um homem loiro, sem camisa e com uma saliente barriga com marcas vermelhas de recém coçada. Eu me apresento e ele apenas fala pra mim: “Nós já perdemos a esperança, seu detetive, nosso querido Francisco está agora nas mãos de Deus.”. Eu presto minhas condolências e depois disso peço uma pista, alguma ultima palavra, onde o menino disse que ia, algo assim. O homem me responde: “Bem, segundo a mãe dele, minha esposa, Francisco disse que iria brincar um novo amiguinho, depois disso ele nunca mais voltou. Logo o da Sônia também desapareceu e as investigações da polícia começaram, mas os homens fardados também não voltaram. Depois disso eu nunca mais saí de casa, quem faz as compras agora é minha esposa, hehe”.
Eu agradeço a ele e parto para a outra casa, torcendo para que a próxima família tenha mais pistas do que esse homem covarde.

O menino Pepe

Essa é a casa do outro menino desaparecido, o tal de Pepe, que era o melhor amigo do Benjamin.  Algo estranho aconteceu no caminho da casa da família de Francisco até essa casa, senti que alguma coisa vinda da floresta me observava. Será que estou vendo muita TV?
Bom, o que importa é que cheguei até a casa de Pepe, uma casinha humilde com uma caixa de correio com o nome Veiga estampado logo na frente. Eu bato na porta. Uma mulher negra, com grandes e volumosos cabelos crespos abre a porta, ela pergunta o que eu quero. Meio na defensiva eu me apresento. Ela pede para que eu entre na casa.
É uma casinha com poucos bens, mas muito bem arrumada e com o suficiente para sustentar uma pequena família. A mulher (o nome dela é Diana) pede para eu sentar, eu assim o faço. Ela senta a minha frente e começa a falar sem parar do seu filho Peterson, diz que ele desapareceu logo após o filho de Sônia, que Pepe e Ben eram inseparáveis, e que Pepe sentiu-se responsável pelo sumiço de seu amigo, pois não estava junto a ele no dia, então partiu (escondido, é claro) floresta adentro no meio da noite. Diana começa a chorar, eu digo com segurança que vou achar os meninos. Pergunto para ela se Peterson e Benjamin tinham feito um novo amigo. Ela me responde que sim, um dia antes do desaparecimento de Ben. Pergunto se o amigo novo tinha um nome, mas Diana não soube me responder o nome do garoto. Deixo a casa humilde da família Veiga com um aceno a senhora Diana, de fato o jeito que essa mulher falou tocou comigo, sinto-me no dever de achar as crianças.
Volto para o pequeno hotel, pois a noite já está mostrando as caras por aqui.

26 de agosto de 2015

Acabo de acordar e já não vejo a hora de comer aquele Brunch delicioso que só os hotéis sabem fazer. Bem, não foi o que aconteceu nesse hotel. Somente um copo de leite e uma fruta a livre escolha entre maçã, abacaxi e banana. Pergunto ao atendente se posso falar com o gerente, ele abruptamente diz que sim e sai à caça de seu patrão. A gerente logo chega, sim, uma mulher, e uma mulher muito bonita ainda por cima. Morena de profundos olhos castanhos e com o corpo que somente uma brasileira poderia ter. Pergunto a ela o porquê do brunch ser tão pobre e ela apenas me diz: “Não podemos sair daqui com um monstro a solta”. Eu pigarreio um palavrão e vou até a casa de minha cliente. Lá pelo menos terá um bom café da manhã.
Quando entro na rua das casas próximas a de Sônia, noto que existem quatro casas no quarteirão. A de Sônia, a da família de Francisco, a da família de Pepe e uma outra casa, também muito simples, mas com musgos por toda sua volta, talvez tenha sido por isso que não a vi ontem, parece estar camuflada próxima as florestas que habitam em frente a esses lares.
Bom, sem mais delongas chego até a casa de minha cliente. Ela, apreensiva, abre a porta e diz que já me esperava com o café da manhã já pronto. Eu entro na casa de Sônia e vou direto na mesa, que falta de cortesia a minha. Vendo esse meu erro já adianto a minha cliente de que hoje farei o trabalho de campo. Entrarei na floresta para achar os garotos. Ela me diz para eu tomar cuidado com o monstro que lá habita. Eu sorrio e saio, depois de encher a pança com café e pão, atrás de mais pistas.

A casa imunda

Bom, antes de tudo vou até essa casa coberta de musgos, ver se tem alguém (que deve ser muito relaxado) morando aqui. Chego na frente da casa e aquele cheiro de mofo já se entranha nas minhas narinas. Um espirro me sai na mesma hora. Eu bato na porta rústica da casa.
Ouço apenas uma mulher gritando: “Abra a porta, Sasha!” e a tal Sasha, uma criança, respondendo: “Não mãe, é o monstro querendo me pegar”. Quando Sasha diz isso sinto aquele mesmo frio na espinha de ontem. Eu olho subitamente para trás, até a floresta, para ver se tem mesmo algo me olhando, talvez meus olhos tenham me enganado, mas pareceu que um pequeno vulto se escondeu atrás da árvore quando olhei para lá.
A porta abre, uma mulher loira de olhos azuis, muito branca mesmo, e com um cheiro meio azedo me recepciona.
“O que que tu quer?” Ela me pergunta.
Eu respondo com uma cordial apresentação e ela me diz logo de cara que talvez sua filha Sasha possa me ajudar.
Eu sento no sofá imundo da também imunda casa e a criança, meio trêmula, fala pra mim que ela viu o menino que leva a todos na floresta. Ela me disse que seguiu Benjamin no dia em que ele desapareceu, pois ela gostava muito dele, me contou que queria que Ben fosse seu namoradinho. Sasha me explica que se escondeu atrás de uma árvore quando Ben saiu correndo até a floresta atrás do menino chamado Dedé. Ela me diz também que ela voltou correndo para casa depois de ver um enorme flash percorrendo a floresta e o corpo de seu amigo Benjamin caindo no chão. Segundo Sasha é esse brilho intenso que está matando as pessoas, é esse brilho intenso que leva todo mundo na floresta.
Depois do depoimento dessa criança eu cordialmente me retiro da casa imunda da família de Sasha .
Agora eu tenho um nome para o caso. O caso Dedé.
Quando saí da casa dei de cara com a floresta, vi, de longe, um menino loirinho me olhando, escondido atrás de uma árvore. Eu gritei “hey, venha pra cá!”, mas no mesmo estante o menino saiu correndo para o meio da floresta e eu, sem pestanejar, fui atrás da criança. Fui sugado pela tal floresta e conseguia ver o menino lá longe correndo.
Eu gritava para ele parar, mas isso só o fazia correr mais e mais. Até que eu caí, tropeçando num galho. Quer dizer, eu achava que era um galho, mas era o corpo de um policial, medi a pressão cardíaca já sem esperança, pois o moribundo estava mais branco do que papel e a boca mais preta do que carvão. Sem sombra de dúvidas aquele homem estava morto.
Antes que escurecesse novamente eu voltei para o hotel, pois tinha adentrado demais na mata e não sabia direito como sair. Quanto mais eu andava, mais eu sentia que a criança estava atrás de cada árvore me observando atentamente. Eu não olhei diretamente para ele, pois estava com muito medo. Por sorte eu saí de lá antes do anoitecer.
Fui até o hotel e jantei um péssimo feijão e arroz antes de dormir.

Hoje

NÃO OLHE DIRETAMENTE NOS OLHOS DELE!"

- Olha só isso, cara. Essa última parte do diário de Baltazar parece ter sido escrita com terra.
- Sim, e parece ser a mesma terra daqui da floresta.
- Por que você acha que só tem isso escrito aqui?
- Nossa, cara! Você não raciocina, não? É óbvio que esse tal de Dedé pegou o Baltazar e a causa da morte seja olhar diretamente nos olhos da criança.
- Ah, desculpe, sabe tudo. Mas eu sou cético quanto a isso até que me provem o contrário.
- Você ouviu a mulher, já faz tempo que ela contratou o Baltazar para esse caso. Ela queria deixar quieto, mas ainda tem esperanças de achar o filho. Vamos dar o nosso melhor para que achemos o corpo, pelo menos.
- Quanto você acha que nós andamos aqui na floresta?
- Não sei direito, há muitas horas, com certeza. Já está anoitecendo e minhas pernas estão pedindo descanso.
- Hey, olhe só para aquilo.
- Meu Deus! Uma pilha de corpos, são as vítimas de Dedé, com certeza!
- Vamos nos aproximar dos corpos.
- Que loucura! Estou com medo!
- Não precisa ter medo, vamos resolver isso de uma vez. Pegamos o corpo do pequeno Ben e vamos até Sônia.
- Mas estão todos decompostos!
- Que se foda, venha aqui comigo!
- Tá bom...
- Deve ser esse corpo aqui, é menor que os outros e o cabelo é ruivo como o da mãe.
- Hey, o que é aquela luz ali longe?
- Não olhe! É Dedé! Não olhe!
- Ah, meu Deus, eu não consigo! Ele está me olhando! Salve-se!
- Meu Deus, seu corpo está espatifado, não era pra você ter olhado para ele! Eu falei! Estou com medo agora! Estou fechando meus olhos. Só abrirei depois de não sentir mais nada!
...
- Ai, parece que ele se foi, Por que estou falando só? ...Vou abrir meus olhos agora.


Dedé olha para você.